“Eu tenho vontade demais de saber. A gente sabendo é bom demais”, afirma categoricamente o operador Graciano Barbosa de Sousa. Nesta segunda-feira (27), ele e os colegas de trabalho retornaram às salas de aula. Carregam, além da mochila recém- adquirida, muita disposição para vencer o cansaço depois de um dia de trabalho debaixo do sol escaldante de Timon, no Maranhão. Retomar os estudos é duplamente desafiador.

Seu Graciano resume o que os impulsiona: “Aprender. Quanto mais, melhor!”. O operador de Estação de Tratamento de Água (ETA) tem no incentivo familiar um grande aliado. “Deram apoio demais”, comemora. A partir de agora, de segunda à sexta-feira, uma nova rotina. Serão duas horas diárias de aula, de 18h30 às 20h30, ao longo de seis meses. E muito, muito aprendizado.

A dificuldade de “juntar as palavras” incomoda. E é essa mesma dificuldade que motiva. “Eu ainda não sei, mas vou saber”. No advérbio de tempo, a força de vontade. Poder nunca pareceu tão próximo. Em seis meses, a sonhada alfabetização, através do programa É Tempo de Educação – uma iniciativa da concessionária de saneamento Águas de Timon, em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI- MA) e com certificação do Ministério da Educação (MEC).

Na metodologia de Paulo Freire, o estímulo à inserção do adulto no entendimento do seu contexto social e político. Através da leitura da palavra, a leitura do mundo. “Trabalhamos na construção do conhecimento junto ao saber adquirido do aluno. Assim, aproveitamos tudo aquilo que o aluno já sabe, elevando o nível de escolaridade do trabalhador, de modo que ele melhore, progrida e alcance outro nível em sua qualidade de vida”, explica Cleide Moraes, gestora pedagógica do SESI – MA.

O processo educacional é estimulado mediante a discussão de experiências dos alunos, em que o tema e as palavras centrais são decodificados para a escrita, leitura e compreensão do mundo. Da letra a, de água, por exemplo, presente nas atividades diárias de hidratação, higiene e trabalho dos agentes de saneamento, a metodologia. “A partir da palavra, a contextualização de uso e realidade. Por etapas: aprender a conhecer as letras, formar palavras, frases, até chegar a construção de textos”, completa.

“Quem não souber, vai aprender. Quem souber um pouco, aprende mais”, sintetiza seu Graciano, um dos mais empolgados da turma, que tem na curiosidade uma companheira. “Eu fico de olho, observo que é pra saber como faz”. Pai de quatro filhos, conta com apoio no lar. “Eu tenho uma netinha que já disse ‘vovô, vou te ensinar nas tarefas’”.

A evasão escolar é a maior vilã da educação de jovens e adultos. “Estar na sala de aula, depois de um dia cansativo, é a prova de que a vontade de aprender é maior do que as dificuldades. Que esta cena se repita ao longo destes seis meses de formação e que este seja o primeiro passo para o crescimento profissional que todos aqui tanto almejam”, destacou o diretor-presidente da Águas de Timon, Renato Medicis.

Na saída, palavras de incentivo compartilhadas por quem tem sede de conhecimento. Os 17 trabalhadores – e agora, estudantes – têm a missão de engajar uns aos outros e motivar mais colegas na busca por qualificação e qualidade de vida. “Até amanhã”, despede-se Francisca Castro, única mulher da turma, que já tem traçado o próximo desafio: aprender a usar o computador.

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