Há derrotas acachapantes. Daquelas das quais não queremos mais ouvir falar. Deixam sempre marcas profundas na alma dos torcedores, humilhados frente à desmoralização da equipe. Demonstram as limitações do time, desnudam impiedosamente fraquezas que desejávamos ignorar ou, ao menos, ocultar. Uma derrota desta natureza provoca um strip-tease instantâneo, sem música e sem ritmo, no qual se revela, ao invés do esperado corpo escultural, a feiura explícita da realidade. Assim é no futebol: grandes “tragédias” esportivas têm o condão de nos revelar subitamente as mais puras verdades.

Infelizmente, assim não é a vida civil do brasileiro. Apesar de sofrermos golpes duros diariamente, que solapam a cidadania e nos empurram para os limites tênues da indignidade, tais fatos raramente têm como resultado a consciência da realidade. Assuntos de importância vital para a nação, que deveriam ser levados com ardor e seriedade patriótica, são peremptoriamente ignorados ou subestimados pela classe dirigente e, pior, pela imensa maioria da população. É o caso do saneamento básico, serviço essencial à proteção da vida e da saúde, bem como para o meio ambiente. Nesta partida, estamos levando uma surra. Eis o placar: Esgoto 7 x Brasil 1. E os momentos mais marcantes do jogo:

— Em tempos de crises hídricas dramáticas, como a vivida em São Paulo, nos damos ao luxo de desperdiçar 37% da água na distribuição, por vazamentos, ligações clandestinas e deficiência de medição. 1 a 0 para o Esgoto Futebol Clube.

— Mais da metade da população não tem acesso ao serviço de coleta de esgoto. Pode-se imaginar a consequência nefasta para a saúde pública: cerca de 108 milhões de pessoas, 54% do nosso povo, produzindo esgoto despejado no meio ambiente sem qualquer tratamento. 2 a 0.

— Nas cem maiores cidades do país, 3,5 milhões de brasileiros despejam esgoto irregularmente, apesar de terem redes coletoras disponíveis. Este dado fala por si, em relação à nossa cidadania. 3 a 0, com gol contra.

— Menos de 40% do esgoto produzidos no Brasil são efetivamente tratados. Nenhuma das regiões trata da metade do seu volume (Centro-Oeste: 45,9%; Sudeste: 43,9%; Sul: 43,9%; Nordeste: 28,8% e Norte: 14,7%). 4 a0 para Esgoto FC.

— Seis milhões de habitantes não têm acesso a banheiros. Das muitas indignidades que a miséria pode produzir, esta é reveladora do que é humanamente inaceitável. 5 a 0, por debaixo das pernas do goleiro.

— O custo estimado para a universalização do abastecimento de água e tratamento de esgoto no Brasil é de R$ 330 bilhões, em 20 anos. No PAC foram destinados R$ 70 bilhões para essa área. Mais de seis anos após o início do plano, apenas 12% das obras estão prontas. 6 a 0, devido à lentidão da nossa zaga.

— A vergonha internacional que passaremos nas Olimpíadas, que trouxemos com grande ufanismo e orgulho para o Rio, pela situação vexatória da Baía da Guanabara, sede de esportes náuticos, visivelmente poluída por esgoto e lixo dos municípios que a circundam. 7 a 0, com direito a “drible da vaca” no goleiro.

Nosso gol de honra vem da postura indignada de setores da sociedade que, longe ainda de produzir frutos expressivos, iniciam um processo que pode nos legar revanches futuras. São sinais de possível mudança: a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica para este ano com o tema do saneamento; manifestações reiteradas da Confederação Nacional da Indústria pela universalização de água e esgoto; estudos técnicos de entidades idôneas como o Instituto Trata Brasil; maior envolvimento do Ministério Público com o problema; surgimento de empresas privadas de saneamento mais eficientes que as antigas estatais e modernização de algumas (poucas) destas últimas. Nosso gol é a esperança de uma nova cultura política do saneamento no Brasil. Com a palavra, os governantes.

Sávio Bittencourt é procurador de Justiça e professor da FGV/Ebape

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo. Leia mais AQUI

Share Button

Os comentários estão fechados.