Por Anderson Viegas, do Agrodebate.

Em um período em que várias cidades do país enfrentam uma grave crise de abastecimento de água, provocada principalmente pela escassez e distribuição irregular das chuvas, Campo Grande, vive uma situação oposta, de verdadeira abundância do recurso natural.

Segundo a Águas Guariroba, concessionária responsável pelo fornecimento a capital de Mato Grosso do Sul, são disponibilizados mensalmente aos 843 mil habitantes da cidade (conforme a estimativa de 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), 6,64 bilhões de litros por mês e o sistema existente atualmente na cidade tem potencial para produzir 30% a mais do que a demanda.

Conforme o engenheiro José João Fonseca, diretor presidente da concessionária, isso afasta, a médio e longo prazo, qualquer risco de desabastecimento ou de racionamento de água em Campo Grande, nos moldes do que ocorre, por exemplo, na capital paulista e em outros municípios do estado vizinho.

Além da “folga” na produção efetiva em relação a capacidade que o sistema pode captar e distribuir, Fonseca diz que a concessionária pode, em um momento de eventual crise, manejar com agilidade a captação entre as diversas fontes e a sua distribuição. “Trabalhamos com uma condição de operação que nos possibilita levar a água, por exemplo, do norte para o sul da cidade, ou do leste para o oeste. Isso nos dá uma segurança operacional muito grande e que poucas concessionárias no país têm”, explica.

Já no estado de São Paulo ocorre uma crise de abastecimento porque o chamado Sistema Cantareira que fornece água para cerca de 9 milhões de pessoas em parte da cidade de São Paulo e em outros dez municípios, registrou uma forte queda no nível de suas represas em razão de uma grande estiagem. O volume útil (água acima das comportas) praticamente zerou e foi preciso utilizar o volume morto (água que fica abaixo das comportas) das represas.

Para evitar o racionamento, o governo paulista começou a utilizar a água de outros dois sistemas, Alto Tietê e Guarapiranga, para tentar compensar a queda na produção do sistema Cantareira. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), também passou a oferecer um bônus em suas faturas para aqueles que reduzirem em pelo menos 20% o consumo em relação a média do ano anterior.

Em contrapartida, em Campo Grande, a “fartura” do recurso é tamanha que a concessionária utiliza “apenas” como fonte auxiliar a captação de água do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água doce subterrâneas do mundo.

De acordo com a empresa, 56% da água que abastece a capital sul-mato-grossense vem de captações superficiais, sendo 40% da represa do córrego Guariroba e 16% do córrego Lageado. Os outros 44% vêm de captações subterrâneas, dos quais 29% são de 140 poços tubulares profundos e 15% de dez poços do Aquífero Guarani, que têm em média 600 metros de profundidade.

 (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Preservação dos mananciais

Segundo a concessionária, o sistema que capta a maior parte da água utilizada atualmente em Campo Grande, o do córrego Guariroba completa em 2015, 30 anos de operação. Em 1985, quando começou a ser utilizado, esse sistema de captação e adução funcionava somente cinco horas por dia, já que não havia consumo para toda a água produzida.

Diante da importância do sistema para o abastecimento da cidade e para assegurar a preservação dos mananciais da bacia, foi criada por decreto municipal em 1995, a Área de Proteção Ambiental (APA) dos Mananciais do Córrego Guariroba, com uma área de 36,2 mil hectares. Em 2001, foi criada a APA da bacia do Lageado, para proteger o outro manancial, com uma área de aproximadamente 5,2 mil hectares.

APA do Guariroba foi criada em 1995 para proteger as nascentes da principal fonte de água de Campo Grande (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

APA do Guariroba foi criada em 1995 para proteger nascentes(Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Em uma parceria entre o município e a concessionária foram realizados estudos sobre as duas bacias, criados conselhos gestores e elaborados planos de manejo para as duas APAs.

Em 2009, na busca de alternativas para os problemas decorrentes de processos erosivos e diante da necessidade de recuperação e conservação das bacias foi criado o Programa Manancial Vivo (PMV).

A iniciativa, que envolveu a prefeitura, a concessionária e a Agência Nacional de Águas (ANA), é um programa voluntário de restauração do potencial hídrico e do controle da poluição difusa no meio rural.

O PMV prevê um pagamento por prestação de serviços ambientais (PSA) aos produtores rurais que, por meio de práticas e manejos conservacionistas e de melhoria da distribuição da cobertura florestal na paisagem, contribuam para o aumento da infiltração de água e para o abatimento efetivo da erosão, sedimentação e incremento de biodiversidade.

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (Semadur), para operacionalização do PMV, a APA do Guariroba foi dividida em cinco sub-bacias: Guariroba, Saltinho, Tocos, Rondinha e Reservatório, sendo que cada uma corresponde a uma fase do programa.

Na fase I (sub-bacia do Guariroba), conforme a Semadur, estavam aptas 16 propriedades rurais, que totalizavam uma área de 7,6 mil hectares, dos quais, sete produtores rurais se inscreveram no programa e cinco permanecem no PMV.

Da água consumida em Campo Grande, 40% vem da represa do córrego Guariroba, que tem nascentes na APA do Guariroba (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Da água consumida em Campo Grande, 40% vem da represa do córrego Guariroba, que tem nascentes na APA do Guariroba (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Segundo a secretaria, nesta fase do programa já foram executadas obras de terraceamento, cercamento das áreas de preservação permanente (APPs) e recuperação de 10 hectares de APPs, que correspondem as obrigações do PMV, bem como os trabalhos de avaliação da situação de cada propriedade inscrita, a fim de que fossem calculados os valores destinados a cada uma. Também foi paga a primeira parcela anual do PSA de 2013.

O produtor rural Jesusmar Modesto Ramos é um dos cinco que estão integrados ao Programa Manancial Vivo nesta primeira fase da iniciativa. Dos 351 hectares de sua fazenda, a Nova Alvorada, 100 são de APPs. Ele trabalha com pecuária e as áreas de nascentes são todas cercadas para evitar que o gado faça nesses locais a dessedentação, consumindo a água e causando danos aos locais.

“Esse é um programa muito interessante, porque nós [produtores] temos que fazer a preservação desses locais, até porque são áreas de preservação permanente. Então, ao oferecer uma remuneração por esse cuidado e esse trabalho, se tem um reconhecimento desse esforço, o que acaba beneficiando toda a população que é abastecida por esses mananciais”, destaca Ramos.

De acordo com a Semadur o programa está atualmente em sua segunda fase, com ações voltadas para a sub-bacia do Córrego Saltinho, que tem uma área total de 7.639 hectares. Nesta etapa 14 proprietários da região estão inscritos.

Uma das nascentes da fazenda do produtor rural Jesusmar Modesto Ramos, na APA do Guariroba (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Uma das nascentes da fazenda do produtor rural Jesusmar Modesto Ramos, na APA do Guariroba (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

A secretaria aponta que para está segunda etapa da iniciativa já foram feitos os levantamentos das informações de campo e elaborados os termos de referência para a contratação dos PSAs. A pasta informa ainda que aguarda agora a tramitação administrativa destas ações e a realização de licitação para a a contratação das empresas que vão executar as obras que são de responsabilidade do município nesta nova fase do programa.

De acordo com a Semadur, vários produtores que ainda não aderiram ao PMV já manifestaram interesse em participar do programa. Com a meta de alcançar as 62 propriedades da bacia do Guariroba, eles devem ser inseridos quando forem abertos novos editais.

Até o fim do ano, ainda conforme a secretaria, o município prevê investimentos de R$ 2,9 milhões no programa, sendo R$ 2,2 milhões em obras e R$ 700 mil em pagamentos por serviços ambientais.

Guarani é o futuro

O diretor presidente da concessionária comenta que apesar do sistema de abastecimento de Campo Grande trabalhar com uma boa folga atualmente, que no futuro deverá haver um incremento da captação das fontes subterrâneas, como a do Aquífero Guarani, por exemplo, para atender a crescente demanda. Por ano, a empresa contabiliza um aumento  médio de 5% no consumo, o que seria equivalente, a 15 mil novas ligações de fornecimento.

Um dos poços de de captação de fonte subterrânea da Águas Guariroba em Campo Grande (Foto: Divulgação/Aguas Guariroba)

Um dos poços de captação de fontes subterrâneas da Águas Guariroba em Campo Grande (Foto: Divulgação/Aguas Guariroba)

O Aquífero Guarani é uma das maiores reservas de água doce subterrânea do mundo. Segundo o assessor internacional da ANA e vice-presidente da Associação Internacional de Hidrogeólogos, Luiz Amore, as primeiras descrições do aquífero no Brasil vêm do  início do século passado e inicialmente ele recebeu o nome de Botucatu.

“Igualmente, nos demais países [que o aquífero abrange] as rochas areníticas formadas a partir das áreas do grande deserto que sucedeu a era dos dinossauros (fim da era Mesozoica) tomou nomes distintos como Buena Vista e Tacuarembó. O nome Guarani foi proposto pelo geólogo uruguaio Danilo Antón em um encontro técnico realizado no Brasil em 1996, de forma a unificar os diferentes nomes do mesmo aquífero e formação geológica. Contudo, foi a partir de 1970 que o conhecimento e uso das águas do aquífero se intensificaram com o uso das bombas submersas”, explica.

Amore diz que área que o Aquífero Guarani abrange é de 1,1 milhão de quilômetros quadrados e as reservas estáticas são de 30 mil quilômetros cúbicos, sendo 1 quilômetro cúbico renovável anualmente sob condições naturais. A área do aquífero se divide entre o  Brasil, Argentina, Paraguai e Argentina. Somente no território brasileiro tem a extensão de 840 mil quilômetros quadrados, dos quais 213 mil quilômetros quadrados estão em Mato Grosso do Sul.

“Existem outros aquíferos maiores como na Austrália e sob o deserto do Saara, porém não renováveis. No Brasil, um dos aquíferos que forma o rio Amazonas (denominado Alter do Chão) é bem grande e também renovável, porém ainda é pouco conhecido”, comenta em relação ao tamanho do Aquífero Guarani.

Considerando somente a reserva renovável, e tendo como parâmetro de consumo o valor médio de 150 litros de água por habitante/dia, o assessor internacional da ANA aponta que o Aquífero Guarani teria condições, com uso sustentável, de atender 18 milhões de habitantes.

Assessor internacional da ANA, Luiz Amore,detalha as características do Aquífero Guarani (Foto: Raylton Alves/Divulgação ANA)

Assessor internacional da ANA, Luiz Amore (Foto: Raylton Alves/Divulgação ANA)

“Os usos nos países são diversificados. Na fronteira da Argentina (Concórdia) com o Uruguai (Salto) existe um polo turístico termal importante. No Paraguai, distintos povoados são abastecidos por poços administrados pela comunidade. No Brasil, grandes cidades são abastecidas de forma intensiva pelo Guarani. Em Ribeirão Preto (SP), por exemplo, que tem cerca de 650 mil habitantes, o nível do aquífero sofreu rebaixamento de 60 metros na zona central da cidade, e acabou sendo estabelecida uma norma de uso, disciplinando a construção de novos poços e a ocupação urbana para garantir sua exploração sustentável. Também em Mato Grosso do Sul, o principal uso é para o abastecimento urbano das cidades localizadas nas zonas de afloramento dos arenitos”, relata.

Para saber mais sobre o aquífero e ter condições de preservá-lo, Amore comenta que entre 2003 e 2009 foi realizado um amplo projeto voltado para a proteção ambiental e desenvolvimento sustentável da reserva que envolveu especialistas dos quatro países.

“Esse trabalho brindou os países de um volume significativo de estudos, instrumentos técnicos e estruturas institucionais inovadoras para apoiar os países na gestão das águas subterrâneas e do Guarani em particular. Em agosto de 2010 os presidentes da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai assinaram o acordo sobre o aqüífero. O acordo já foi aprovado pelo parlamento da Argentina e do Uruguai, mas ainda encontra-se pendente de aprovação pelo congresso dos dois demais países para que entre em vigor”, detalha.

O diretor presidente da concessionária que abastece Campo Grande comenta que assim como ocorre com os mananciais superficiais, que a empresa também desenvolve um trabalho para assegurar a preservação das fontes subterrâneas, em especial o Aquífero Guarani.

Uma das principais ações deste trabalho, conforme Fonseca, é o combate em parceria com o poder público e o ministério público, aos poços clandestinos, que abertos sem autorização, em locais inadequados, da forma errada e mantidos sem a devida manutenção, oferecem grande risco de contaminação das fontes subterrâneas.

“Não se pode ter um poço atualmente. A legislação estipula que onde existe rede de abastecimento de água as pessoas têm que se conectar a ela. Com uma empresa sendo responsável pela captação, tratamento e distribuição da água, como é o caso da Águas Guariroba, é mais fácil para os órgãos de saúde pública fazerem o monitoramento da qualidade dessa água. Agora em Campo Grande temos a estimativa de que existem 25 mil poços clandestinos. Quem vai conseguir monitorar essa quantidade de poços. Como se vai assegurar que a água extraída desses locais é de boa qualidade e que está livre de contaminações. Não se tem como fazer isso”, analisa.

O diretor presidente da Águas Guariroba comenta que um dos principais riscos do uso de poços clandestinos é o de que a água esteja sendo extraída de um lençol freático contaminado pelos dejetos de fossas sépticas.

“O sistema completo de uma fossa séptica é composto por uma fossa, um filtro e um sumidouro, sem isso, a instalação oferece risco de contaminação do lençol freático. Mas hoje, dos locais que ainda utilizam fossas sépticas quais deles têm toda essa estrutura? Muito poucos. A maioria tem somente um buraco no chão e cada buraco desses é um potencial poluidor do lençol freático”, explica.

Ele lembra, em contrapartida, que a água distribuída pela concessionária em Campo Grande passa por rígidos processos de controle de qualidade e tem seu tratamento acompanhado por um responsável técnico, o que assegura que o produto atende todos os padrões de potabilidade determinados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e Ministério da Saúde.

“Para garantir a potabilidade, além do tratamento, no laboratório de monitoramento de qualidade da água da empresa são realizadas análises em todo o processo: desde a captação nos poços e represas até a distribuição nos bairros”, comenta o diretor presidente da Águas Guariroba.

Gráfico sistema de tratamento de água de Campo Grande (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Fonseca diz que evitar a contaminação das fontes subterrâneas de água de Campo Grande é um dos objetivos da companhia ao investir na ampliação da rede de esgoto da cidade. “Hoje o serviço de esgoto está disponível para 73% da população e até 2025 deverá chegar a 100% dos moradores da cidade, com um investimento neste projeto de R$ 636 milhões”, comenta, completando que todo o esgoto já coletado recebe o tratamento adequado antes de ser lançado no meio ambiente.

“Investir em rede de esgoto não é investimento somente em saneamento básico, também é em saúde da população. Quando levamos a rede de esgoto para uma comunidade asseguramos que aquelas pessoas vão deixar de estarem expostas a várias doenças, quase uma centena delas, segundo especialistas. Tudo por conta de terem seu esgoto coletado corretamente e terem água tratada. As pessoas vão ter uma qualidade de vida melhor. Então, com esse investimento eu estou cuidando e preservando o meio ambiente e ao mesmo também cuidando da saúde da população”, salienta.

Sustentabilidade

Além de investir na preservação dos mananciais superficiais e subterrâneos e na ampliação da rede de esgoto do município, a concessionária aponta que é realizado um trabalho voltado para melhorar a eficiência do sistema de abastecimento, focado principalmente na redução de perdas e otimização dos serviços.

Conforme a empresa, desde 2006 vem sendo feito um trabalho que reduziu as perdas no sistema de abastecimento de água de Campo Grande de 56% para 20%, com a utilização de ações voltadas para a prevenção de vazamentos e combate as fraudes, entre outros.

O diretor presidente da Águas Guariroba, diz que a central de controle da empresa instalada em um prédio ao lado do parque das Nações Indígenas, monitora por meio de aproximadamente 200 câmeras em tempo real todo o sistema de abastecimento, desde a captação em suas diversas fontes, passando pelo tratamento até distribuição.

Diretor-presidente da Águas Guariroba mostra o centro de controle do sistema de abastecimento de Campo Grande (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Diretor-presidente da Águas Guariroba mostra o centro de controle do sistema de abastecimento de Campo Grande (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

“Utilizamos o que existe de mais moderno no setor. Temos equipamentos da Alemanha e um software de Israel, que somente a empresa utiliza no Brasil. Buscamos com isso melhorar a eficiência do sistema e entregar um serviço de melhor qualidade a população. Esse centro de controle possibilita não somente monitorar todo o sistema, como garantir a segurança das nossas instalações e a captação de dados que vão nos ajudar a planejar as ações futuras da empresa. Isso possibilita, por exemplo, saber quanta água eu posso captar de cada fonte e por quanto tempo, de modo a garantir sua sustentabilidade”, comenta.

Outras iniciativas desenvolvidas pela empresa para assegurar a sustentabilidade do sistema de abastecimento de água da capital sul-mato-grossense, conforme o gestor, estão voltadas para a conscientização da população para o uso racional do recurso.

“Desenvolvemos diversas iniciativas, como o programa Saúde Nota 10, em que técnicos vão a escolas, faculdades, universidades e entidades para ministrar palestras, distribuir material didático, fazer concursos culturais e ainda apresentações de teatro de bonecos, sobre a importância da água tratada, rede de esgoto e uso racional de água. O programa já passou por 127 escolas da rede pública e privada entre 2006 e 2013, beneficiando 110 mil alunos e até o fim deste ano devemos atender mais 20 mil.  Temos ainda projetos voltados também para lideranças comunitárias, professores e a imprensa, além de outras campanhas e programas socioambientais”, detalha.

Um exemplo de como a consciência sobre o uso racional da água está crescendo no município vem do empresário Paulo César Fernandes, proprietário da lavanderia Toalheiro Campo Grande (TCG), no bairro Jardim Noroeste. Sua empresa utiliza mensalmente cerca de 60 mil litros de água por mês para fazer a lavagem de aproximadamente 5 toneladas de uniformes e toalhas industriais recicláveis.

Empresário Paulo César Fernandes mostra o funcionamento da miniestação de tratamento de água (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Empresário Paulo César Fernandes mostra o funcionamento da miniestação de tratamento de água (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Desse volume de água consumida na lavanderia industrial, cerca de 80% é reutilizada após passar por uma miniestação de tratamento. A estrutura, implantada na própria empresa há cerca de 5 anos, faz o tratamento físico-químico da água, que depois de passar pelo processo que demora cerca de 12 horas para ser concluído, é utilizada até três vezes no sistema de lavagem.
Depois desse limite de uso a água passa por tratamento novamente antes de ser descartada.

De acordo com o empresário, somente com a reutilização da água a economia em cada mês representa cerca de R$ 2 mil. Além de reaproveitar a água já utilizada, ele conta que implantou na empresa outra pratica sustentável para racionalizar ainda mais o uso do recurso. Utiliza a área de aproximadamente 200 metros quadrados do telhado que cobre as instalações da lavanderia como sistema de captação de água das chuvas.

Fernandes explica que água da chuva cai no telhado e depois é escoada para duas calhas, sendo conduzida por tubulações para um sistema de filtragem e em seguida armazenada em uma caixa de água de 10 mil litros, que fica nos fundos do terreno da empresa. “O uso dessa água captada da chuva representa uma economia de 20% a 30% em relação ao meu consumo total na empresa. É um volume bem expressivo”, ressalta.

O investimento em ações de reutilização de água e uso de água das chuvas, conforme o empresário, além de demonstrar o compromisso da empresa com a sustentabilidade, ajudar a preservar o meio ambiente (já que evita o despejo de água contaminada por produtos como graxa e óleo na natureza), reduzir o consumo do recurso natural e aliviar o caixa da lavanderia, também pode assegurar benefícios tributários ao empreendimento.

Empresário Paulo César Fernandes mostra filtro do sistema de captação de água das chuvas (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Empresário mostra filtro do sistema de captação de água (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

O empresário diz que já encaminhou o pedido a prefeitura para se beneficiar do chamado Imposto Ecológico, que é uma iniciativa que prevê a concessão de desconto no valor do  Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) até o limite de 10% para pessoas físicas e jurídicas proprietárias de imóveis residenciais e comerciais, que adotem medidas que estimulem a proteção, preservação e recuperação do meio ambiente no município.

“Esse tipo de incentivo é fundamental para o empresário, porque hoje a questão ambiental tomou uma dimensão muito grande no cotidiano das empresas. Deixou de ser apenas uma questão de marketing para ser uma questão de conscientização, de respeito ao meio ambiente e a população. Por isso, as empresas vêm se esforçando ao máximo para reciclar seu lixo, reutilizar sua água. Um incentivo financeiro como esse é sempre importante, porque o investimento que se faz para adotar essas práticas é grande”, concluiu.

O Imposto Ecológico foi criado em 2010 no município e prevê a concessão do benefício a empresas e pessoas físicas que adotem as seguintes medidas: sistema de captação de água da chuva, reuso da água, sistema de aquecimento hidráulico solar, sistema de aquecimento elétrico solar e uso de material sustentável na construção.

Monitoramento de uso da água

Desde julho deste ano Mato Grosso do Sul ganhou um importante instrumento para monitorar o uso dos seus recursos hídricos. Entrou em vigor um decreto do governo do estado que regulamenta a outorga de exploração de sua água, seja de fontes superficiais ou subterrâneas.

Decreto que regulamenta a outorga dos recursos hídricos de MS entrou em vigor em julho deste ano (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Decreto que regulamenta a outorga dos recursos hídricos de MS entrou em vigor em julho deste ano (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

A nova legislação estipula que estão sujeitos a outorga: a derivação ou captação que sejam feitas em um corpo de água (como rios e córregos), seja para consumo final, abastecimento público ou uso em processo produtivo; a extração de água em aquífero; o lançamento de esgoto e outros resíduos em um corpo de água; o aproveitamento de potencial hidrelétrico e outros usos que alterem a quantidade ou qualidade da água existente em um corpo de água.

O decreto estipula ainda que os prazos de vigência das outorgas serão fixados em função da natureza, finalidade e porte do empreendimento e que também será levado em conta, se for o caso, o período de retorno de investimento, variando de 3 até 35 anos.

As infrações as normas de utilização dos recursos hídricos superficiais ou subterrâneos do estado estarão sujeitas, conforme a legislação, a uma série de penalidades, que vão desde advertência, passando por multas de R$ 100 a R$ 10 mil, e chegando até a revogação da outorga de uso.

O secretário estadual de Meio Ambiente, do Planejamento, da Ciência e Tecnologia (Semac), Carlos Alberto Said Menezes, considera a legislação um grande avanço para o estado na preservação de seus mananciais e fontes subterrâneas de água.

“É uma grande conquista para a completa preservação dos nossos recursos hídricos, ainda mais que Mato Grosso do Sul é um estado privilegiado, com grandes fontes superficiais e subterrâneas de água, que precisam ser preservadas e utilizadas com responsabilidade, para assegurar sua sustentabilidade para as gerações futuras”, comentou o secretário.

Em relação aos contratos de uso da água que estão em vigência no estado, o secretário disse os prazos de validade serão respeitados, mas que empresas e pessoas que utilizam o recurso terão de fazer um cadastramento de informações.

Conforme o decreto, caberá ao Instituto de Meio Ambiente do estado (Imasul) outorgar e fiscalizar o direito de uso dos recursos hídricos em Mato Grosso do Sul.

Crescente importância da água no mundo

Segundo a publicação GEO5 – Panorama Ambiental Global, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 2012, a extração mundial de água triplicou nos últimos 50 anos, sendo que os aquíferos, bacias e áreas úmidas estão cada vez mais ameaçados. Mesmo assim, eles continuam a ser mal manejados e monitorados.

GEO5, do Pnuma, aponta que aqüíferos, bacias e áreas úmidas estão cada vez mais ameaçados (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

GEO5, do Pnuma, aponta que aqüíferos, bacias e áreas úmidas estão cada vez mais ameaçados (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

O GEO5 aponta que o ritmo da redução dos estoques globais de águas subterrâneas mais que dobrou entre 1960 e 2000. Atualmente, segundo a publicação 80% da população do mundo vive em áreas com graves ameaças à segurança hídrica, sendo que a mais grave categoria de ameaça afeta 3,4 bilhões de pessoas, a maioria em países em desenvolvimento.

Até 2015, o documento ressalta que 800 milhões de pessoas ainda não terão acesso a um melhor abastecimento de água, apesar dele ser considerado junto com coleta de esgoto um investimento de baixo custo para reduzir doenças e mortes relacionadas a água.

O GEO5 destaca ainda que em muitos países ainda não existe coleta de dados, monitoramento e avaliação hidrológica, da disponibilidade e da qualidade da água, e que essas informações são essenciais para o manejo integrado dos recursos hídricos e desenvolvimento sustentável das fontes superficiais e subterrâneas.

Matéria originalmente publicada no Portal G1

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