Os investimentos em saneamento básico vão dobrar neste ano, com a maior participação da iniciativa privada na prestação de serviços de tratamento de água e esgoto. Até 2030, o setor deve movimentar R$ 420 bilhões

Durante décadas, os políticos seguiram à risca o discurso de que “tubo enterrado não dá voto”. Com essa postura, travaram investimentos vitais ao saneamento básico, deixando milhões de brasileiros expostos a doenças pela falta de água encanada. Hoje esse quadro começa a ser revertido, com apoio da iniciativa privada, pela combinação de dois fatores: a maior cobrança da sociedade por esses serviços e a entrada em vigor da Lei do Saneamento, em 2007, que obriga os prefeitos a investir em redes de água tratada, com regras claras para estabelecer contratos de concessão. Não por acaso, os projetos previstos para este ano somam R$ 7,2 bilhões, o dobro do volume do ano passado.

Mário de Queiroz Galvão, presidente da CAB Ambiental

Mário de Queiroz Galvão, presidente da CAB Ambiental: “Vamos investir R$ 2,1 bilhões
nos próximos anos, e devemos triplicar nossa receita até 2017″

A expansão do setor atende à diretriz do governo federal de universalizar, até 2030, os serviços de tratamento de água e esgoto nos 5.565 municípios brasileiros. A projeção do Ministério das Cidades é de que os investimentos cheguem a R$ 420 bilhões nesse período, incluindo a ampliação das redes de águas pluviais, para evitar enchentes. “Como não temos dinheiro, a saída é a parceria com empresas privadas”, diz o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). É exatamente essa a proposta do governo federal. No dia 6 de março, quando anunciou a alocação de R$ 33 bilhões em recursos para projetos no setor, a presidenta Dilma Rousseff deu as boas-vindas ao capital privado.

Hamilton Amadeo - Presidente do Grupo Equipav

Amadeo, da Equipav: “A taxa de retorno em saneamento é de 10% a 11% ao ano.
Muito mais atraente do que o retorno de projetos de ferrovias ou rodovias, por exemplo”

“Nessa área são muito importantes as parcerias público-privada (PPP), diante do volume de investimentos necessários para que a gente dê um salto”, disse a presidenta. Ao tornar a ampliação do atendimento uma obrigação pública, a Lei de Saneamento abriu uma frente de oportunidades de negócio para as empresas. Embora as parcerias com o setor privado tenham começado ainda nos anos 1990, a criação de um marco regulatório despertou o interesse dos gigantes do setor. “Os governos começaram, finalmente, a olhar a infraestrutura como vetor de crescimento”, diz Roberto Muniz, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços de Água e Esgoto (Abcon).

“Enquanto isso, as empresas privadas atendem apenas 265 municípios.” Além da boa oferta de projetos à disposição atualmente, a taxa de retorno dos investimentos no setor tornou-se um atrativo à parte: entre 10% e 11% ao ano. “É muito mais atraente do que a taxa de retorno dos projetos de ferrovias e rodovias”, diz Hamilton Amadeo, presidente do Grupo Equipav, holding que controla a empresa de saneamento Aegea, que opera concessões em quatro Estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. O que garante essa rentabilidade é justamente a (ainda) baixa cobertura desses serviços – e, portanto, um enorme potencial de crescimento.

Muniz, da Abcon: "Os governos começaram, finalmente, a olhar a infraestrutura como vetor de crescimento"

Muniz, da Abcon: “Os governos começaram, finalmente, a olhar a infraestrutura
como vetor de crescimento”

Segundo o Censo de 2010, a rede de água chega a 91% dos municípios, mas apenas 53% das cidades coletam o esgoto, e apenas 26% dos municípios tratam os dejetos. O maior contrato de PPP do setor foi celebrado em fevereiro deste ano, pelo governo de Pernambuco. São R$ 4,5 bilhões para universalizar o serviço de água e esgoto em 15 municípios do Grande Recife. Desse total, R$ 3,5 bilhões ficarão a cargo do consórcio vencedor, formado pela Foz, do Grupo Odebrecht, e pela pernambucana Lidermac. “Esperamos dobrar o número de usuários e chegar a 25 milhões até o fim de 2015”, afirma Renato Medeiros, diretor da Foz, que atua hoje em 167 municípios de nove Estados brasileiros.

Quem também cresce aproveitando o novo cenário é a CAB Ambiental, do Grupo Galvão, que atua tradicionalmente em construção civil e infraestrutura. Um pouco antes da aprovação da lei, a companhia se capitalizou, adquiriu concorrentes e se preparou para a ampliação do mercado. No ano passado, o BNDESpar, braço do BNDES de investimentos, entrou como sócio da CAB Ambiental. Hoje, a empresa administra 18 concessões em Estados como Alagoas e São Paulo. Nos próximos anos, vai investir R$ 2,1 bilhões para cumprir os contratos já firmados e buscar novas oportunidades. “Até 2017, vamos triplicar nosso faturamento para R$ 1,2 bilhão anual”, afirma Mário de Queiroz Galvão, presidente da CAB Ambiental.

Dilma, da Sabesp: "Usamos as concessões tanto para operar em municípios como para atender clientes empresarias"

Dilma, da Sabesp: “Usamos as concessões tanto para operar em municípios
como para atender clientes empresarias”

Para os Estados, é a oportunidade de realizar investimentos sem desfalcar os cofres públicos. “Hoje usamos essas concessões tanto para operar o serviço em municípios como para atender clientes empresariais”, explica Dilma Pena, presidente da Companhia de Abastecimento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Em sistema de PPP, a estatal paulista vai ampliar o fornecimento de água para 1,5 milhão de pessoas em quatro cidades da Grande São Paulo – Barueri, Itapevi, Jandira e Carapicuíba, com investimento de R$ 1,65 bilhão. No Norte do País, o governo do Amazonas passou para a companhia Águas do Brasil, que também tem participação do Grupo Queiroz Galvão, o serviço de abastecimento de água na Grande Manaus. A empresa, que já opera em nove cidades do Rio de Janeiro e cinco de São Paulo, está investindo R$ 3,4 bilhões na região.

Neste ano, o faturamento da empresa deve chegar a R$ 1 bilhão, 25% a mais do que no ano passado. E os novos projetos não param por aí. O governo fluminense deve lançar um edital até dezembro para licitar o serviço na região de Jacarepaguá. Em Minas Gerais, a Copasa, companhia de saneamento estadual, lança ainda neste mês um edital para ampliar a rede de água na região metropolitana de Belo Horizonte, com investimentos estimados em R$ 451 milhões. Também os Estados do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul programam novas concessões até o final deste ano. Pelo jeito, saneamento pode até não dar voto aos mais desavisados, mas não restam dúvidas de que tratar de água e esgoto tornou-se uma fonte de lucros para as empresas mais atentas.

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Por Cristiano ZAIA

Fonte: Isto É Dinheiro

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